O DRG está chegando ao Brasil de forma progressiva, mas boa parte dos gestores hospitalares ainda mistura o que o sistema resolve com o que continua sendo problema de gestão. Essa confusão tem custo: hospitais que esperam o DRG resolver glosa ou melhorar permanência vão se decepcionar rapidamente quando os contratos mudarem.
Este artigo separa o que o DRG efetivamente transforma da gestão financeira do hospital do que continua dependendo de processo interno e de capacidade de governança.
O que é o DRG e por que ele está chegando ao Brasil
DRG (Diagnosis Related Group, ou Grupo de Diagnóstico Relacionado) é um sistema de classificação de internações hospitalares que agrupa pacientes com diagnósticos e procedimentos similares em categorias com custos esperados comparáveis. Criado nos EUA nos anos 1980 e hoje usado em mais de 30 países, o DRG está sendo implementado progressivamente no Brasil via ANS e operadoras de saúde.
A lógica é direta: em vez de pagar por cada item (diária, medicamento, procedimento), o convênio paga um valor fixo por episódio assistencial classificado em um grupo DRG. Se o hospital custar menos que o valor do DRG, fica com a diferença. Se custar mais, absorve o prejuízo.
Para o hospital, isso muda a equação financeira de forma estrutural. A eficiência operacional deixa de ser um objetivo de qualidade e passa a ser condição de sobrevivência financeira. Um hospital que demora 10 dias numa internação que o DRG classifica como 7 dias perde dinheiro em cada episódio desse tipo.
Bradesco Saúde, SulAmérica e Unimed-BH já operam projetos-piloto de remuneração baseada em DRG. A ANS publicou em 2025 as primeiras diretrizes para adoção progressiva. A expectativa do setor é que o DRG cubra 30 a 40% das internações de média e alta complexidade até 2030, convivendo com fee-for-service para casos de alta variabilidade clínica.
O que o DRG resolve
Precificação de episódios
O DRG fornece uma referência objetiva de custo por tipo de internação. O hospital consegue comparar seu custo de uma artroplastia de quadril, por exemplo, com o benchmark nacional e saber se está operando acima ou abaixo da eficiência esperada para aquele grupo. Essa visibilidade, que hoje depende de contabilidade de custos interna sofisticada, passa a ter uma referência externa comparável.
Comparabilidade entre hospitais
O DRG permite que operadoras e hospitais comparem eficiência de forma padronizada, independente do mix de complexidade. Um hospital terciário com casos mais complexos é comparado dentro das categorias DRG correspondentes, não contra hospitais de menor complexidade. Isso cria um benchmark justo que hoje não existe no modelo fee-for-service.
Estímulo à eficiência operacional
Quando o hospital sabe que vai receber um valor fixo por episódio, ele tem incentivo financeiro direto para reduzir custos e permanência. Isso muda o comportamento clínico de forma sistêmica: médicos passam a ter mais interesse nos indicadores de permanência porque eles afetam diretamente a margem do hospital.
O que o DRG não resolve
Aqui está o ponto onde muitos gestores se enganam. O DRG muda o modelo de pagamento. Não muda os processos internos.
Glosa
O DRG muda a forma de pagamento, mas não elimina divergências de cobrança. Hospitais continuam precisando de auditoria de contas, controle de codificação e gestão das regras de cada convênio. A glosa não é um problema de modelo de pagamento: é um problema de processo.
Com o DRG, a glosa muda de forma. Em vez de glosa por item (material não coberto, diária acima do permitido), surgem discordâncias de classificação: o hospital classifica o episódio num grupo DRG de maior complexidade, a operadora contesta e classifica em grupo de menor valor. A auditoria de codificação se torna ainda mais crítica, não menos.
Permanência excessiva
O DRG estimula a redução de permanência, mas não a opera. Se o hospital tem alta médica tardia por problema logístico (falta de vaga de reabilitação, família que não está disponível, transporte não organizado) ou por ausência de protocolo de alta, o DRG vai revelar o problema nos números, mas não vai resolvê-lo. A solução é processo interno de gestão de leitos e protocolo de alta estruturado.
Indicadores operacionais
Taxa de ocupação, giro de leito, cirurgias por sala e tempo de espera não são afetados diretamente pelo DRG. São problemas de gestão operacional que existem independente do modelo de pagamento. Um hospital com DRG e sem gestão de leitos estruturada vai ter DRG e taxa de ocupação baixa ao mesmo tempo.
Qualidade assistencial
O DRG mede custo por episódio, não qualidade do resultado clínico. Um hospital pode ter DRG eficiente com readmissões altas, complicações frequentes e satisfação do paciente baixa. A qualidade assistencial precisa ser monitorada por indicadores próprios, separados da equação financeira do DRG.
Como o hospital se prepara para o DRG
A transição para DRG exige três preparações simultâneas. Nenhuma delas começa no dia em que o contrato muda.
Qualidade da codificação
O DRG depende de codificação precisa de diagnósticos (CID-10) e procedimentos (TUSS). Hospitais com codificação imprecisa vão ser classificados em grupos errados e receber valores inadequados, para cima ou para baixo. A auditoria de codificação não é uma preparação para o DRG: deveria já existir como controle básico de qualidade do faturamento.
O passo prático: fazer um diagnóstico de aderência da codificação atual ao padrão DRG usando uma amostra representativa das internações dos últimos 6 meses. O resultado vai mostrar onde estão as lacunas e qual o impacto financeiro potencial da classificação incorreta.
Controle de custos por episódio
O hospital precisa saber quanto custa cada tipo de internação. Isso exige contabilidade de custos por centro de resultado com alocação de custeio por paciente, não só por setor. A maioria dos hospitais brasileiros não tem essa granularidade hoje. Construir essa capacidade leva de 6 a 18 meses dependendo do sistema de informação disponível.
Gestão de permanência
Com DRG, cada dia a mais de internação desnecessária é prejuízo direto. O hospital precisa de protocolos de alta estruturados por DRG, gestão de leitos em tempo real e indicadores de permanência por diagnóstico monitorados continuamente. Isso não é preparação para o DRG: é capacidade operacional básica que o DRG vai simplesmente expor em formato financeiro.
O que a metodologia IMGG prevê para a transição ao DRG
A metodologia IMGG do Grupo Faires antecipa as exigências do DRG em duas de suas cinco dimensões: Glosa/Faturamento e Eficiência Operacional.
Hospitais que já operaram com IMGG têm, em média, 18 meses de vantagem na transição para DRG porque já desenvolveram as capacidades que o DRG vai exigir: codificação auditada, controle de custos por episódio e gestão de permanência ativa. Essas capacidades não foram desenvolvidas pensando no DRG. Foram desenvolvidas porque são boas práticas de gestão hospitalar independente do modelo de pagamento.
Para hospitais que ainda não passaram por esse processo, o diagnóstico IMGG serve como ponto de partida para identificar as lacunas prioritárias antes que o DRG entre em vigor nos seus contratos. O resultado do diagnóstico mostra não só onde o hospital está, mas em que ordem as intervenções devem acontecer para maximizar a prontidão para o DRG.
A Sthealth complementa o processo com monitoramento em tempo real dos indicadores de codificação e permanência, permitindo que o hospital acompanhe sua evolução e identifique desvios antes que se transformem em perdas financeiras no modelo DRG.
Para gestores que querem entender o nível de prontidão do seu hospital para o DRG, o diagnóstico IMGG está disponível via agendamento com a equipe Faires.
Perguntas frequentes
O DRG vai substituir o modelo de fee-for-service nos convênios brasileiros?
A tendência é de adoção progressiva, não substituição total. Operadoras grandes (Bradesco, SulAmérica, Unimed) já pilotam modelos DRG em hospitais parceiros. A ANS está regulamentando a base. A expectativa do setor é que o DRG cubra 30 a 40% das internações de média e alta complexidade nos próximos 5 anos, convivendo com fee-for-service para casos de alta variabilidade.
Qual a diferença entre DRG e global hospitalar?
O global hospitalar é um valor fixo negociado entre operadora e hospital para cobrir um conjunto de procedimentos por período. O DRG é um valor por episódio classificado, com tabela nacional de referência e baseado em evidência de custo. O DRG tem mais transparência e comparabilidade; o global tem mais flexibilidade de negociação bilateral.
Como o DRG impacta a gestão de glosa?
No DRG, a glosa muda de forma mas não desaparece. Em vez de glosa por item (material não coberto, diária acima do permitido), surgem discordâncias de classificação: o hospital classifica o episódio num grupo DRG de maior complexidade, a operadora contesta e classifica em grupo de menor valor. A auditoria de codificação se torna ainda mais crítica.
Um hospital de pequeno porte precisa se preparar para o DRG?
Depende do mix de convênios. Hospitais que atendem principalmente Unimed, Bradesco e SulAmérica em procedimentos eletivos de média complexidade já estão no radar de implementação. Hospitais com mais de 60% SUS têm horizonte mais longo. O critério é: quais operadoras representam mais de 15% do faturamento e têm planos de DRG documentados.
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